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Tribunais superiores ganham mais agilidade
Cinco anos depois da reforma do Judiciário, os tribunais superiores começam a sentir a redução das montanhas de recursos que atrasam o julgamento de causas importantes e impedem os processos de chegar ao fim. Dados inéditos do Superior Tribunal de Justiça (STJ) mostram que o volume de ações distribuídas entre janeiro e abril caiu 40,6% em relação ao mesmo período do ano passado. No Supremo Tribunal Federal (STF), a queda foi ainda mais expressiva: os ministros receberam 56,4% menos recursos especiais e agravos de instrumento na comparação com o primeiros quatro meses do ano passado.
O freio ao acúmulo de processos se deve à adoção
de ferramentas que livram os tribunais de julgar centenas de vezes as mesmas
questões. O STF inaugurou as mudanças com a repercussão
geral, que foi criada pela reforma e começou a ser aplicada há
dois anos. Com o instrumento, o tribunal deixou de receber novas ações
sobre polêmicas já julgadas pelos seus ministros. A edição
de súmulas vinculantes, iniciada em agosto de 2007, também aliviou
a Corte ao obrigar todas as instâncias a seguirem seu entendimento em
assuntos como o nepotismo nos Três Poderes e a cobrança de taxa
de matrícula em universidades públicas.
No STJ, a pilha de ações começou a baixar no ano passado,
quando a lei de recursos repetitivos impediu que o tribunal continuasse a
ser bombardeado por recursos diferentes sobre assuntos semelhantes.
Até aqui, a regra já foi aplicada em 145 temas recorrentes.
A maioria diz respeito a disputas comerciais e tributárias que se
alongavam indefinidamente na Corte.
- Houve uma redução extraordinária do volume de ações
nos tribunais superiores.
Uma Justiça afogada em processos favorece a prescrição
dos crimes e aumenta a sensação de impunidade no país
- diz a cientista política Maria Tereza Sadek, da Universidade de São
Paulo, que estuda o Judiciário desde a década de 80.
Para o presidente do STJ, ministro Cesar Asfor Rocha, a lei de recursos repetitivos
livrou o tribunal de um colapso iminente.
A quantidade de processos distribuídos no tribunal descrevia uma curva
ascendente a cada ano. O volume de ações saltou de 92 mil em
1998 para 271 mil em 2008, um aumento de 194% em uma década.
- Do jeito que a coisa andava, nós poderíamos nomear mais cem
ministros, construir outros dez prédios, e não conseguiríamos
julgar todos os processos que chegam ao tribunal.
A sociedade exige que a Justiça seja mais rápida - diz o ministro
Asfor Rocha.
A apresentação de recursos idênticos disparou com a aprovação
do Código de Defesa do Consumidor, em 1990. Ao mesmo tempo em que ampliou
os direitos dos cidadãos, o texto permitiu que as grandes prestadoras
de serviço organizassem batalhões de advogados para protelar
durante anos o julgamento das ações. Com a lei de recursos repetitivos,
bancos, empresas de telefonia e grandes redes de varejo passaram a ter menos
chance de empurrar as queixas dos clientes até os gabinetes dos ministros.
- A cultura de que cada caso é um caso estava inviabilizando o funcionamento
do sistema.
Para questões de massa, o Judiciário precisa dar respostas de
massa - afirma o presidente do STJ.
"Foi um pontapé inicial, ainda há muita coisa a ser feita"
Primeiro secretário de reforma do Judiciário do Ministério
da Justiça, o advogado Sérgio Renault avalia que as restrições
de acesso aos tribunais superiores vão valorizar as decisões
das outras instâncias judiciais.
- O sistema brasileiro estava transformando as decisões de primeiro
grau num mero rito de passagem, porque os processos nunca chegavam ao fim.
Nosso objetivo foi combater o uso da Justiça como instrumento de adiar
uma decisão definitiva. Recorrer ao Judiciário não pode
ser um bom negócio - diz Renault, que foi nomeado em 2003, pelo ex-ministro
Márcio Thomaz Bastos, e deixou o governo em 2006.
- A reforma foi um pontapé inicial, mas ainda há muita coisa a ser feita. Um dos maiores desafios é reduzir o número de recursos disponíveis sem restringir o direito à ampla defesa, que é garantido pela Constituição.
fonte: clipping TRF-1